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“O Fica Vivo! sempre esteve aberto”

A importância da voz ativa para a juventude e o esforço para cultivar essa iniciativa são alguns dos temas abordados em entrevista com um dos coordenadores do programa

Esse texto é continuação da matéria 'De encontro à juventude' do Prevenção em Rede 11
 
Psicólogo de formação e mestrando em teoria psicanalítica pela UFMG, Fídias Gomes Siqueira é hoje coordenador de Proteção Social do Programa Fica Vivo!. Até assumir esse posto, no qual chegou em setembro de 2013, já são 10 anos de Política de Prevenção, atuando inicialmente como técnico social no Centro de Prevenção à Criminalidade (CPC) Ribeiro de Abreu, em Belo Horizonte, vindo a assumir em 2008 a gestão social dos CPCs Morro das Pedras, Cabana e Barreiro, também na capital mineira. Desde o início dessa trajetória, Fídias trabalha de perto com a temática da juventude, e é com base nessa experiência que ele analisa, abaixo, o amadurecimento dos fluxos e espaços de diálogo do Fica Vivo! com seu público, destacando a importância desse movimento para os jovens e o programa.
 
Prevenção em Rede (PER) – É correto dizer que o Fica Vivo! está passando por um momento especial no sentido de uma maior institucionalização dos espaços de voz ativa para os jovens, a exemplo do que ocorreu com as Conferências Livres (saiba mais) do ano passado?
 
Fídias Gomes Siqueira – O Fica Vivo! sempre trabalhou com a perspectiva de dar voz aos jovens. Antes até, trabalha preocupado em escutar esse público. Escuta não somente suas reivindicações, mas também o que apresenta sobre suas perspectivas de vida. Nesse sentido, fomentar espaços e potencializar a participação juvenil em situações que assegurem a possibilidade de problematizar a situação atual da juventude pelos próprios jovens é um caminho que o Fica Vivo! não perde de vista. 
 
PER – Quais outras ações, além das Conferências, poderiam ilustrar esse esforço de institucionalização?
 
Fídias – Entendemos que também os projetos institucionais e locais (saiba mais) contribuem para fomentar os espaços de participação. E não só: é o caso ainda das ações que articulamos com órgãos das outras áreas governamentais e entidades da sociedade civil que estejam trabalhando em torno da situação da juventude, como acontece em fóruns e conferências e em espaços mais estruturados como os conselhos e secretarias de juventude.
 
PER – Quais preocupações e aspectos têm sido levados em consideração na proposição desses novos espaços de deliberação com os jovens?
 
Fídias – A principal preocupação quando se fomenta esse tipo de espaço é garantir a continuidade das ações, bem como articular o encaminhamento das proposições para aquelas instâncias que poderão receber as propostas e viabilizar seu cumprimento. Tomando como exemplo o caso das Conferências Livres, tivemos um trabalho de formação da participação juvenil, com os jovens marcando presença nas etapas municipais e na conferência estadual, no final do ano, em Araxá. Nesses eventos, auxiliamos no encaminhamento das propostas desse grupo, algumas das quais puderam integrar os documentos finais de tais encontros.
 
PER – Com relação à expectativa em torno desse movimento, espera-se que ele leve aonde?
 
Fídias – Espera-se que este caminho leve à mudança na relação da juventude com o Estado, com a política, com a própria participação cidadã, garantindo desta forma a efetividade de sua condição de sujeito portador de direitos e deveres.
 
De maneira geral, a dificuldade para dialogar com a máquina do Estado existe para todo mundo. Muitas vezes, parece que os governos não nos ouvem, embora a ideia de participação já esteja tão difundida hoje, em tempos de democracia... Ao mesmo tempo, é inegável que os jovens dos territórios vulneráveis sempre tiveram uma relação ainda mais tensa com o poder público, historicamente fundamenta na repressão, com o Estado aparecendo quando não há mais controle.
 
Nosso movimento é no sentido de promover uma inversão nisso, levando o Estado até essas localidades, com a promoção do acesso aos mais diversos serviços básicos. Mudando essa relação, o indivíduo descobre que é sujeito de direitos, que é cidadão. Esperamos ainda alterar a postura da juventude, incentivando a uma atitude não só de espera, mas também de provocação, instigando o Estado a sair da sua rotina, levando-o a se voltar aos territórios que normalmente não contempla adequadamente.
 
PER – Um tipo diferente de abertura do programa ao seu público está em pauta?
 
Fídias O programa Fica Vivo! sempre esteve aberto ao seu público. O próprio nascimento do programa se deu com a escuta dos jovens, entre outros grupos, lá no Morro das Pedras (relembre essa história)... Não houve uma perspectiva vertical, institucionalizada a partir de uma estrutura totalmente definida pelo poder público. Essa marca, não à toa, repercute até hoje no modo de trabalho das equipes.
 
Na prática diária, essa marca se traduz em uma grande flexibilidade da metodologia do Fica Vivo!. Por causa dela inúmeros projetos são construídos a partir do acolhimento das propostas dos jovens, que vão de torneios esportivos, passando por festival de papagaio, até campeonato de videogame, só para citar alguns exemplos.
 
PER – Quer dizer, então, que há um espaço para eles dizerem do que gostam...
 
Fídias – Sim! Vários episódios ilustram isso... Lembro-me de um aqui, agora, quando eu ainda era técnico, em que uma turma de jovens que jogavam na rua veio manifestar junto à equipe da qual eu fazia parte que tinham vontade de contar com um campo para brincar melhor. Bom, o problema era que nós, da equipe técnica, sabíamos que não havia esse espaço na comunidade... Mas, aí, os próprios jovens começaram a nos apontar soluções. Primeiramente, sugeriram uma área que era um terreno abandonado, bem descuidado, que precisaria de aterramento e outras intervenções, enfim, de toda uma estrutura que não seria possível viabilizar ali no momento. Depois, descobriram uma casa em que havia um campo, onde acabamos negociando com o dono, que acabou cedendo o espaço para a realização de uma oficina, finalmente. Ou seja, a participação deles foi ativa desde a proposição da atividade até a definição de como viabilizaríamos o trabalho.
 
A gente não chega com propostas prontas de oficina. Há sempre a abertura, a pergunta... Acolhemos o interesse deles a fim de gerar respostas que interfiram numa dada realidade. Acreditamos assim que o programa alcança maior identificação e mesmo maior legitimidade com seu público. Afinal, se uma política pública não reconhece o saber dos lugares e a vontade das pessoas que constituem seu público prioritário, a tendência é não ter adesão, é fracassar. Isto é o que faz deste programa um grande diferencial. E é necessário que esta abertura seja sempre uma perspectiva em nosso horizonte de trabalho.
 
PER – Voltando às Conferências, elas impactaram no relacionamento do programa com seu público?
 
Fídias – As Conferências Livres impactaram o público, as equipes, o Programa Fica Vivo! como um todo. Os relatórios vieram plenos de discussões e depoimentos sobre questões de gênero, raça, estigma, empregabilidade, identidade, preconceito, exclusão social, sexualidade e drogas... Os jovens relataram dificuldades diversas, de problemas no tratamento de assuntos como sexualidade e homossexualidade junto a seus pais, até dificuldades de atendimento adequado em espaços públicos como o centro de saúde, que seria, por exemplo, a possibilidade de uma jovem ter acesso a métodos contraceptivos, mas que, em função da presença de funcionários que são vizinhos ou podem ter certa proximidade com sua família, tornam o acesso constrangedor, o que mina a ação preventiva...  Situações aparentemente sutis, que as políticas públicas em seu formato atual precisariam considerar em sua metodologia.
 
Uma situação muito discutida pelos jovens foi sobre o estigma e a vida em suspeição. Morando no aglomerado, na favela, muitas vezes sentem-se discriminados. Sentem esta diferença tanto nos espaços da cidade fora de seu território, como vivenciam tais situações dentro de sua própria vizinhança. Muitos jovens relatam a necessidade de sempre andar com o documento de identidade, muito mais para atenderem uma exigência policial do que como exercício de cidadania. Também é comum terem de apresentar comprovantes de propriedade de algum bem que tenham adquirido.
 
Além dos depoimentos reveladores, nas quase 20 conferências que foram realizadas, destaco também a capacidade das equipes de acolher as propostas dos jovens, sendo que estes em alguns encontros foram mais de 100, e de realizar o evento das mais variadas formas e nos mais diversos espaços. Houve locais em que as Conferências ocorreram ao ar livre, nas praças, o que foi muito proveitoso até no sentido de pautar a discussão sobre a relação do jovem com o território em que vive.
 
PER – Fazendo um balanço das Conferências e de todas as outras iniciativas mencionadas no mesmo sentido, como a questão da voz ativa influenciaria na perspectiva do protagonismo, que o programa procura imbuir em seu público?
 
Fídias – O programa tem um ponto de causa: a mortalidade juvenil e a preservação da vida. É partir disto que construímos nossos esforços de compreensão e de ação. É nesse sentido que mobilizamos estratégias que contribuam para que os jovens inventem soluções próprias para o dilema da vida e assumam seus lugares como cidadãos. É a partir do lugar de cidadão que apostamos na capacidade da juventude em protagonizar situações de vida mais do que de morte. E mesmo quando é frente à morte que os mesmos se encontram, ainda assim, nossa ação é em direção oposta, acreditando na possibilidade de se sentir cidadão e se incluir no debate social como forma de tratar o problema da criminalidade violenta que produz tantas mortes e agressões.
 
A partir do lugar de sujeito de direitos é que  um novo sentido para a vida pode ser construído, inventado, de modo que esta cidadania pode se estender além do território, e os seus direitos podem ser ampliados. O programa considera a diferença, a individualidade, a possibilidade de estranhar a naturalização da violência e da morte como saída frente a vida. É isto que procuramos provocar em nosso público.
 
PER – Como assim?
 
Fídias – O Programa Fica Vivo! não pretende impor nenhum modelo moral, não depositamos sobre os jovens expectativas que estes não poderão responder. Nossa atuação é orientada por uma perspectiva ética e não moral. O programa não visa somente um tipo de público, mas visa combater formas de segregação. Se o jovem tem uma trajetória ou está em situação de transgressão, se está ou não na escola, isso não é impedimento para participar do Fica Vivo!.
 
PER – Quais desafios estão sendo percebidos nesse trabalho de estímulo à fala e engajamento da juventude?
 
Fídias – Um grande desafio no momento é desenvolvermos a capacidade de trabalhar diretamente com esse público mais específico, diretamente envolvido com a criminalidade violenta, que o programa hoje já dá conta de acessar.
 
Responder de maneira diferente a esses jovens é um desafio porque eles estão envolvidos com um universo de dinheiro fácil e imposição da força que traz um retorno muito rápido. E a questão do tempo é muito complexa de se trabalhar com a juventude. Eles têm uma perspectiva de vida efêmera que acaba dificultando o diálogo com possibilidades que exigem algum investimento pessoal, algum sacrifício.
 

Trabalhar no imaginário desse público a renúncia ao excesso imediatista é um desafio grande e fundamental, pois, é a partir de novas motivações e sentidos que estes jovens podem efetivamente decidir por trajetórias de vida que não resultem na mortalidade juvenil.

 

Centros de Prevenção citados na entrevista (na ordem em que aparecem):

 

CPC Ribeiro de Abreu
Rua Feira de Santana, 12
Ribeiro de Abreu – Belo Horizonte/MG
(31) 3435-9583 | 3434-2540
 
CPC Morro das Pedras
Rua Gama Cerqueira, 1.117
Jardim América – Belo Horizonte/MG
(31) 3377-8626 | 8657
 
CPC Cabana
Rua São Geraldo, 110
Cabana do Pai Tomás – Belo Horizonte/MG
(31) 3321-3447 | 3386-1227
 
CPC Serra
Rua Engenheiro Lucas Júlio de Proença, 73, 2º andar
Vila Marçola – Belo Horizonte/MG
(31) 3221-5990

 

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